O governo Trump tem adotado várias medidas para reduzir o déficit comercial com o país asiático que, em 2017, alcançou US$ 375 bilhões. Ao anúncio da imposição de taxas de importação sobre aço e alumínio chineses em março se soma o memorando que prevê a imposição de US$ 100 bilhões em tarifas a outros produtos do país asiático. Em retaliação, o Ministério de Comércio da China já sinalizou que pretende impor tarifas sobre 106 produtos americanos. Esse cenário, que intuitivamente parece beneficiar o agronegócio brasileiro pode ter desdobramentos que não sejam tão favoráveis assim a esse importante setor da economia nacional.
O primeiro aspecto que deve ser avaliado para estimar tais impactos é quais são os principais produtos agrícolas importados pela China, cuja principal origem são os Estados Unidos e estão sujeitos à intenção de aumento tributário chinês; e, entre eles, quais são os principais produzidos e exportados pelo Brasil.

*Mil litros. Em 2017, as exportações americanas foram fortemente afetadas pela imposição de 30% de imposto sobre o etanol em janeiro do mesmo ano. No ano anterior, os EUA haviam exportado 853 milhões de litros para o mercado chinês.
Fonte: USDA, SECEX, Ministério do Comércio da China.

Dentre os produtos que atendem a tais características, o caso da soja é o que mais chama a atenção. O aumento da tarifação sobre o produto norte-americano – que atinge parte significativa do berço eleitoral de Trump – poderia até a beneficiar o Brasil no curto prazo se a queda dos preços na bolsa de Chicago for compensada pelo aumento dos prêmios nos portos brasileiros.

No entanto, tendo em vista que em 2017 os compradores chineses importaram 93 milhões de toneladas de soja – das quais 38% foram originadas nos Estados Unidos, acredita-se que o aumento tarifário não duraria por muito tempo dada a dificuldade em encontrar volume semelhante em outros países produtores. Uma escassez de oferta do produto poderia ter desdobramentos substancialmente negativos para a economia local.

Poder-se-ia argumentar que o Brasil se beneficiaria das restrições à carne suína. Todavia, não se acredita na existência de um espaço muito relevante para o aumento das vendas nacionais – além daquela que já temos observado nos três primeiros meses de 2018 –, já que a oferta local do produto está em expansão na esteira da modernização da produção. Além disso, há forte concorrência com a produção na União Europeia, responsável por aproximadamente 2/3 das importações chinesas. A expectativa, por exemplo, é que a importação do país asiático reduza 3% em 2018.

Outro produto que vale chamar a atenção é o etanol. Isso porque o governo chinês aprovou, recentemente, o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina para 10% até 2020, sugerindo que, diante da baixa capacidade instalada da indústria local, as importações do produto deveriam aumentar (em 2017, o consumo de gasolina foi de 162,8 bilhões de litros). Porém, o efeito desse aumento da tarifa para o Brasil apresenta dupla interpretação. Se, de um lado, poderia abrir portas para o produto brasileiro no mercado chinês, por outro, tenderia a reduzir os preços do etanol americano e aumentar a sua competitividade nos portos brasileiros.

A essa perspectiva de impactos limitados de curto prazo, não se descarta a possibilidade de que o governo chinês faça concessões comerciais aos Estados Unidos na tentativa de resolver o imbróglio. Isso poderia refletir, por exemplo, em uma reabertura das portas chinesas para o frango americano, o que poderia reduzir as exportações brasileiras para tal país que, no ano passado, somaram US$ 760 milhões.

Não se pode perder de vista também que caso essas ações protecionistas perdurem no longo prazo, poderemos observar uma redução no crescimento do comércio global, o que, por sua vez, tem relação direta com o nível da atividade econômica no mundo. Essa queda na taxa de crescimento do PIB global poderá reduzir o ímpeto de aumento da demanda por alimentos no mundo e, consequentemente, impactar as exportações do Brasil no futuro.
Portanto, apesar de que, intuitivamente, a guerra comercial entre Estados Unidos e China pareça beneficiar o agronegócio brasileiro, um olhar mais atento sugere que tal cenário – além de não ser tão positivo – traz consigo alguns elementos de risco significativos no médio e longo prazos, os quais poderiam comprometer parte de todo o crescimento esperado desse setor.

Nota da redação: matéria publicada na edição 104 da revista Agrimotor