O Brasil tem tudo para se tornar o campeão mundial do Agronegócio. Mas, para isso, tem que provar a que vem, e, claro, fazer muita lição de casa.

Marcus Frediani

Safras gigantescas, recorrentes recordes de produção, crescimento mesmo em tempos de pandemia… Tudo isso junto – e mais uma série de outras coisas – torna o Agronegócio brasileiro o “candidato natural” a ocupar o pódio do mais importante produtor mundial de alimento com toda a segurança alimentar necessária. Entretanto, para ganhar essa medalha de ouro, temos ainda que vencer muitos obstáculos, alguns dos mais importantes deles, paradoxalmente, muito mais criados por nós mesmos do que por fatores externos.

Exemplos disso? Bem, salvo algum “ineditismo” temporal, todos são amplamente conhecidos por aqueles que trabalham e vivem do setor agro, e se traduzem em necessidades emergenciais, tais como eliminação dos gargalos de nossa infraestrutura; a promoção da segurança jurídica em níveis exponenciais para atrair os investidores; reforçar as pesquisas e valorizar urgentemente a Ciência e modernizar seus centros de desenvolvimento, devolvendo-lhes condições de trabalho e aporte de recursos; e, ainda, estimular e difundir, de verdade, o acesso à tecnologia e à conectividade aos produtores de todos os distantes rincões de nosso país, incluindo os mais distantes.

“Não há segredo: é ‘só’ tudo isso!” comenta muito bem humorado, mas com otimismo e precisão cirúrgica, um dos maiores especialistas brasileiros no Agronegócio, o ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas, o FGVAGRO, Roberto Rodrigues. Confira, a seguir, a entrevista que ele gentilmente concedeu à reportagem da Revista Agrimotor, em meio a inúmeros compromissos de sua atribulada agenda.

Revista Agrimotor: Dr. Roberto, inegavelmente o Brasil tem hoje um papel fundamental da segurança alimentar no planeta. Mas o que falta para conquistarmos definitivamente o título de “campeões mundiais” nesse ranking?

Roberto Rodrigues: Bem, temos todo o potencial para fazer isso. Mas é preciso vencermos alguns obstáculos antes. E creio que o principal deles é a falta de uma consciência nacional em relação a esse assunto. Não existe uma clareza desse papel por parte da sociedade brasileira e, por consequência, por parte de nosso Legislativo, Executivo e Judiciário. Enfim, o Estado brasileiro ainda não se convenceu de seu papel central nas reuniões do plenário global. E como ele não se convenceu, não temos uma estratégia para atingir tal objetivo.

Quais são os principais obstáculos para o estabelecimento dessa estratégia?

São vários. A primeira questão é a questão de logística e infraestrutura. Não adianta ser competitivo na fazenda se o produto perde competitividade até chegar ao seu destino. Felizmente nós temos hoje um ministro de Infraestrutura, o Tarcísio de Freitas, que tem uma visão muita clara e objetiva sobre isso, e vem avançando no tema, tecendo soluções quase silenciosamente, construindo estradas com a ajuda do Exército brasileiro, por exemplo. Então, temos um projeto andando, e que, em cinco anos, deverá mudar o cenário brasileiro.

Mas o problema é que nós ficamos 30 anos parados, não é mesmo?

Pois é. Até os anos 1970-1980, o Brasil tinha uma agricultura costeira, tudo ficava a 500 quilômetros do mar, até porque os principais centros urbanos de consumo também ficavam muito próximos do litoral. Tanto para exportar quanto para consumo interno, a pressão era muito costeira. Só que “de repente” descobrimos o Cerrado, e a agricultura “voou” para lá com uma competência fora do comum, com a ajuda de empresários brilhantes, de tecnologias bastante consistentes geradas nas universidades. Só que, infelizmente, as estradas não foram para lá, nem as ferrovias e nem os armazéns. Então, a infraestrutura não foi, e isso demorou décadas para ser percebido. Mas, agora, finalmente isso está acontecendo.

Mas dá para pensar em só o governo fazendo isso?

Claro que não. E esse é o gargalo central: o governo não tem condições de fazer tudo o que tem que ser feito. Então, é essencial que haja uma parceria público-privada, inclusive com investidores de fora do Brasil que têm interesse, que querem vir para cá. Mas, para que venham de fato, aportando volumes significativos de recursos, eles querem segurança jurídica do investimento feito, a fim de que haja uma clareza quanto ao retorno do investimento. E isso passa, necessariamente, pelas reformas que nós estamos sempre tateando. Sim, fizemos duas importantíssimas, a Trabalhista e a da Previdenciária, mas falta a Tributária, que tem um caráter essencial para a tomada das decisões de investimento, bem como a redução da burocracia.

E como o senhor analisa a questão do mercado?

Esse é outro ponto de importância fundamental sobre o qual temos que nos debruçar. Nas últimas três ou quatro décadas, o agronegócio brasileiro cresceu espetacularmente graças a três fatores internos e um externo. Os três internos foram tecnologia, terra disponível e o trabalho de gente jovem e competente, vetores que contribuíram para o aumento da nossa produtividade. E o externo foi o mercado global, que cresceu, principalmente nos emergentes, trazendo o aumento da demanda a reboque. Mas, agora, é preciso fazer acordos bilaterais, multilaterais para abrir novos mercados além de consolidar os mercados que já temos. E isso implica um vigoroso trabalho de diplomacia. Um papel que cabe ao Itamaraty, ao Ministério de Indústria e Comércio, ao do Comércio Exterior e ao da Agricultura. Trata-se de um trabalho duríssimo, permanente, não é uma coisa que você faça um roadshow e acaba. É um negócio que não para nunca. E, infelizmente, o principal acordo que tínhamos em vista, entre o Mercosul e a União Europeia, está começando a fazer água por certa incompetência em nossa comunicação e, também, na área diplomática. Não podemos nos fechar para nenhum país, ou privilegiar apenas um: comércio é uma coisa que tem que ser bom para todo mundo. Somos um país muito grande para escolher mercado. Temos que estar disponíveis para todo mundo que queira comprar aqui. Então, como a China é nosso grande mercado, temos que cultivá-lo com cada vez mais atenção. Além disso, temos que olhar o mercado no Oriente Médio, os mercados árabes, a Índia e os outros países asiáticos, como a Indonésia, a Malásia e as Filipinas. Enfim, é preciso buscar mercados sem, é claro, perder de vista o fato de que os países desenvolvidos, como os da América do Norte e os da União Europeia, também são gigantescos em termos de oportunidades. Assim, temos que olhar todos eles com uma ambição diplomática muito maior e mais ativa do que estamos fazendo atualmente.

O senhor considera a atual política de apoio à agricultura brasileira adequada?

Bem, esse é outro tema de grande relevância, no qual a Tereza Cristina, que é uma competentíssima ministra da Agricultura, está trabalhando com muita atenção atualmente, visando à montagem de um tripé fundamental, composto pelo Seguro Rural, pelo Crédito Rural e pelos Preços de Garantia. No que diz respeito ao Seguro Rural, acho importante abrir um parênteses para ajudar a opinião pública a entender esse processo. É o seguinte, a Europa passou fome durante a 2ª Guerra. Quando o conflito terminou, os países europeus decidiram que nunca mais passariam fome e, criaram a chamada PAC, Política Agrícola Comunitária, baseada em subsídios, proteção e seguro. E por que essa política foi criada? Porque a segurança alimentar foi, é e sempre será um fator central para a união das nações, o que explica também a razão pela qual a PAC, mais tarde, acabou redundando na criação da Comunidade Econômica Europeia, hoje União Europeia. A segurança alimentar para a população é uma questão absolutamente central em qualquer país do mundo. Por quê? Bem, porque um homem com fome é um homem bravo. Mas um homem com um filho com fome é um revolucionário.

O que implica dizer, então, que a fome é um fator de desestabilização política e de problemas com relação à paz, não é mesmo?

Exatamente. Daí a preocupação dos governos em fazer da segurança alimentar argumento fundamental para garantir sua própria sobrevivência, sua própria estabilidade e segurança enquanto governo. Dessa forma, a criação de políticas agrícolas funciona também para estabilizar a renda do produtor rural, para que ele possa garantir a segurança alimentar para a população urbana, para a efetiva defesa da agricultura, e não porque o agricultor é “bonitinho”. Ou seja, é porque ele é a única garantia de abastecimento da população urbana, para, com isso, dar estabilidade política ao país. E esse conceito ainda não é claro entre nós. Aqui, quando se anuncia um plano de safra maior, ou melhor, logo vem uma notícia assim: “a agricultura ganha tantos milhões”. Não ganha nada. Quem ganha é a saúde urbana, porque vai haver garantia de abastecimento. Esse conceito é o que nos falta para que haja a consciência coletiva da importância da agricultura enquanto fator gerador da estabilidade social e política do Brasil.

Contudo, essa percepção deve ter mudando um pouco em função da pandemia do novo corona vírus.

Sem dúvida. Com a COVID-19 observamos um upgrade nessa preocupação, porque as pessoas se deram conta de que podem ficar sem comprar sapato, sem comprar automóvel, sem comprar televisão, mas não podem ficar sem comprar comida. E se deram conta também que a agricultura brasileira não parou nem um dia, e nem pode parar. A agricultura é uma atividade impulsionada por forças externas da natureza. No Brasil e no mundo todo, o produtor rural é um sócio da natureza. Ele age em função dela. E se a natureza evolui a cada dia, a cada semana, e a cada mês, o agricultor não pode parar. Por conta desse compromisso, a sociedade brasileira se deu conta também de que não faltou nada em supermercado nenhum, não houve desabastecimento. E mais: o Brasil foi um dos poucos países do mundo que aumentou as exportações agrícolas durante a pandemia. Isso mostrou, mais uma vez, a importância da agricultura para o brasileiro e para o mundo inteiro. Hoje, mais de 1,2 bilhão de pessoas comem o que o Brasil produz. E para que esse número de gente aumente ainda mais, precisamos de uma política pública com estratégia lastreada no tripé que mencionei aí atrás: Seguro Rural, Crédito Rural e Preços de Garantia.

Atingir esse estágio, com certeza é algo possível. Entretanto, ainda parece um sonho, porque os pilares desse tripé ainda parecem não estar “fincados” no solo com a solidez necessária.

Pois é, existe uma interdependência entre esses três pilares, para que isso seja possível. Eles têm que interagir em cadeia para gerar algo essencial: a tranquilidade no Agronegócio. Por causa disso, embora não eu não tenha sido o “inventor” dele, foi que a primeira coisa que fiz como ministro da Agricultura foi criar o Seguro Rural com essa visão. Só que o governo nunca fez a parte dele de colocar recurso orçamentário no seguro para que ele fosse cumprido. Agora não, a Tereza Cristina conseguiu mais do que dobrar o valor dele. Ainda é pouco, mas foi um salto muito importante. Mas tenho certeza de que algum dia todo mundo terá Seguro Rural para ter o Crédito Rural, uma vez que, aí, conseguiremos estabelecer um ambiente de segurança ideal, no qual qualquer banco vai se sentir tranquilo para oferecer crédito ao produtor rural. Mas tem uma coisa: o seguro só será oferecido para quem usar tecnologia sustentável. Quem não fizer isso, não vai poder obtê-lo. Em outras palavras, a tecnologia é que vai dar sustentação a um Seguro Rural consistente, que, por sua vez, vai dar segurança aos bancos e às outras forças do mercado na área do crédito. E tudo isso, acoplado a um programa de Preços de Garantia, criará o ambiente de estabilidade perfeito para o Agronegócio no Brasil.

Então, na sua leitura, o acesso e, efetivamente, o uso da tecnologia, inegavelmente, deverá ser uma espécie de “quarto pilar” dessa auspiciosa plataforma. Até porque vivemos hoje um momento muito especial, que é o advento da Agricultura 4.0.

Sem a menor dúvida. Esse novo modelo já está na nossa porta. Mas, para isso, temos que fazer investimentos maciços em Tecnologia, para urgentemente reverter situações lastimáveis vivenciadas por alguns dos mais renomados centros de desenvolvimento agrícola espalhados pelo país, que hoje se encontram sem recursos, sofrendo cortes orçamentários e pagando salários equilibrados em relação a outras atividades para seus pesquisadores. Estamos perdendo cientistas, perdendo cabeças porque a Ciência não é tratada no país com o valor que lhe é devido. E ninguém pode pensar o futuro sem Ciência. A competitividade só se dá com a Ciência, com a Tecnologia e com a informação adequada. Então, de novo, vejo a Tereza Cristina. Eu entendo as dificuldades do governo com o orçamento decrescente em função da pandemia, situação que o obriga a fazer opções entre as quais a Saúde, a Educação e a Segurança ocupam papéis centrais. Mas, repito: sem ciência não há futuro. E o mais grave é que isso contrasta muito com o que vemos por aí, nos chamados países desenvolvidos, incluindo o que se vê na área técnica.

Como assim?

Por exemplo, hoje você vai a uma universidade de Agronomia nos Estados Unidos e vê que tem gente lá trabalhando com a NASA, já em ritmo de Agricultura 5.0. Ou seja, o parceiro deles hoje não é tanto o engenheiro de campo, mas o engenheiro espacial. Qualquer universidade científica importante está ligada na área espacial, na área de satélite, de comunicação, de conectividade. E enquanto isso, aqui no Brasil, a gente ainda encontra dificuldades de conectividade por telefonia móvel entre São Paulo e Campinas. Então, como você vai pensar num processo de conectividade como tem que ser feito na agricultura, com drones voando o tempo inteiro sobre as plantações e entre os rebanhos de bois e vacas, se nem as coisas básicas você consegue resolver? De que adianta ter uma colheitadeira com cinco computadores de bordo, se você não tem uma torre para levar as informações que eles registram para uma subestação? Toda essa estrutura tecnológica demanda muito investimento. Hoje, o setor privado está fazendo o papel que o Estado não consegue fazer. Temos, por exemplo, uma instituição chamada Conectar Agro que já tem mais de 5 milhões de hectares conectados à sua plataforma, desempenhando esse papel que deveria ser da competência do Estado. Essa é a situação atual sobre a qual precisamos nos debruçar para encontrar soluções. E com muita urgência.

Com certeza. Além disso, outra questão urgente que precisamos resolver é a da onda de neoprotecionismo global no que tange aos controles sanitários, que vem se evidenciando de maneira mais eloquente nestes tempos de COVID-19, bem como em função de severas críticas que o Brasil vem recebendo no mundo todo em função de sua política ambiental, considerada “preocupante” e “ineficiente” pela maciça maioria desses críticos. De que forma isso pode nos prejudicar e “queimar” a imagem do Agronegócio brasileiro lá fora?

“Bem, o que ficou evidente nessa história é que nem a Organização Mundial da Saúde (OMS) está preparada sequer para “prever” uma pandemia” que dirá “combater”. Então, imagino que a régua da questão sanitária vai ter que subir, sim, no mundo inteiro. E nós estamos bem nessa régua. Temos uma boa estrutura sanitária. Mas, claro, é preciso melhorarmos ainda mais, sempre melhorar. Já no que tange à nossa imagem, claramente estamos vendo um problema de comunicação inadequada. É verdade: tivemos um aumento de desmatamento ilegal na Amazônia, não tem como esconder, é óbvio, todo mundo sabe. Tivemos problemas enormes com incêndios, e não adianta dizer que foi por causa do clima seco – a razão não importa. O fato é que, num curto período de tempo, tivemos mais desmatamento ilegal e mais incêndios do que a média que poderia ser considerada “normal”. E isso é um argumento ótimo para o concorrente que quer tirar o Brasil da parada. Veja essa ação nossa agora na pandemia exportando mais que outros países do mundo assustou o concorrente. Por enquanto não aconteceu nada concreto ainda, mas, certamente, vai acontecer. Creio que a questão ambiental hoje não é mais uma onda, mas, sim, algo que veio para ficar. Por quê? Porque está na cabeça da juventude. A juventude no mundo inteiro quer defender o meio ambiente.

Mas será que ela sabe o que é, exatamente, “defender o meio ambiente”?

Ela não sabe direito o que é isso aí, não entende direito, faz uma confusão danada com as coisas, mas a questão ambiental é um tema presente na juventude. E, portanto, vai ficar “na moda” por mais 50 anos, tempo em que essa juventude vai mandar no mundo. Então, no final das contas, não importa muito elucubrar se os jovens sabem ou não o que é defender o meio ambiente. Em função disso também, não há como fingir que essa questão não é central: a “perna” da sustentabilidade veio para ficar, e temos que olhá-la muito bem. Temos que reconhecer que temos desmatamento ilegal, queimadas que provocam grandes incêndios, invasão de terras, contratos não cumpridos e, infelizmente, muita gente mal-intencionada fazendo isso por aqui. E, a partir daí, combater com seriedade e vigor todos esses problemas, a fim de acabar com eles. É claro como água: o Agronegócio brasileiro é legalista por definição. É só comunicar isso com clareza, não tem como tapar o sol com a peneira. Mas temos que mostrar isso por meio de atos, porque não adianta só ficar dizendo que temos a estrutura mais sustentável do mundo etc. e tal, porque isso dá munição para nossos concorrentes nos atacarem. A tomada de atitudes como essas, certamente nos auxiliará sobremaneira a criar uma estratégia articulada, a fim de que o Brasil passe a ocupar, merecidamente, a sua posição de campeão mundial do Agronegócio.