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 Retomada à vista do setor sucroalcooleiro
 
Após amargar período difícil, o atual cenário da cana-de-açúcar e seus derivados traz melhores expectativas.
 
Marcus Frediani
 
O setor sucroenergético passou, nos últimos anos, por uma de suas piores crises, agravada pela conjuntura econômica mundial, afetando todos os elos da cadeia produtiva da cana-de-açúcar. Mais recentemente, a concorrência internacional do preço do açúcar, com uma queda abrupta em relação ao ano passado, de 21 centavos de dólares por libra-peso para 12 centavos de dólares por libra-peso, e o retorno do PIS/COFINS no etanol – R$ 0,12 por litro do hidratado, a partir de janeiro deste ano e, em julho, de R$ 0,1309 –, refletem a baixa dos investimentos no setor, decorrente de entraves mercadológicos e políticos.
 
“No entanto, de modo geral, o atual cenário traz melhores expectativas. Na última entressafra – ou safra da indústria de base –, por exemplo, ainda que longe do ideal, pudemos observar uma modesta melhora nos pedidos de reformas pelas usinas, o que não vinha ocorrendo pela falta de capital para investimentos. Dessa maneira, as unidades vêm operando no limite de sua capacidade, o que pode gerar demandas de retrofit e até aquisição de novos equipamentos, visando maior eficiência e produtividade. Nossa indústria possui tecnologia e mão-de-obra suficientes para atender, prontamente a retomada”, explica Aparecido Luiz, presidente do Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis (CEISE Br).
 
O setor ainda aguarda, ansiosamente, pela implantação do RenovaBio, programa do governo federal que pode devolver a competitividade de que ele tanto necessita. O projeto, por meio de políticas públicas, prevê ampliação da produção e sistematização da remuneração dos biocombustíveis, entre outras estratégias, visando ao cumprimento das metas de redução de gases de efeito estufa, assinadas no Acordo do Clima de Paris. “Com a definição do papel dos biocombustíveis na matriz energética brasileira, o Brasil poderá, efetivamente, se desenvolver sustentavelmente, nos três pilares que o conceito agrega: econômico, social e ambiental, gerando empregos e renda”, pontua Aparecido.
 
Enquanto a recuperação, do setor e da economia, é processada, as indústrias têm investido em outros mercados, simultaneamente. Uma pesquisa realizada, em 2016, com as empresas associadas ao CEISE Br, por exemplo, apontou que quase 30% do faturamento delas advém de outros segmentos, como o Papel e Celulose, Óleo & Gás, Energia Eólica, Alimentos, Siderurgia, Mineração, Automobilística, Naval, e Transportes.
 
De modo geral, há uma maior conscientização das pessoas em relação ao meio ambiente, principalmente sobre os efeitos indesejáveis da utilização de combustíveis fósseis no balanço de carbono na atmosfera e seus efeitos desastrosos do aquecimento global. Nesse contexto, a agroindústria sucroalcooleira mostra-se muito favorável devido ao esgotamento das jazidas petrolíferas e ao elevado preço do petróleo, além disso, o álcool é um combustível ecologicamente correto, não afeta a camada de ozônio e é obtido de fonte renovável. A diferença começa na sua queima, ela emite menos gases poluentes na atmosfera, pelo fato do álcool ser derivado da cana-de-açúcar e não do petróleo.
 
Atualmente, a cana-de-açúcar é considerada uma das grandes alternativas para o setor de biocombustíveis devido ao grande potencial na produção de etanol e aos respectivos subprodutos. Além da produção de etanol e açúcar, as unidades de produção têm buscado operar com maior eficiência, inclusive com geração de energia elétrica, auxiliando na redução dos custos e contribuindo para a sustentabilidade da atividade. O Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, tendo grande importância para o agronegócio brasileiro. O aumento da demanda mundial por etanol, oriundo de fontes renováveis, aliado às grandes áreas cultiváveis e condições edafoclimáticas (em especial clima, relevo, litologia do solo, temperatura, umidade do ar, radiação solar, tipo de solo, vento, composição atmosférica e precipitação pluvial) favoráveis à cana-de-açúcar, tornam o Brasil um país promissor para a exportação dessa commodity.
 
Perspectivas da safra 2017/18
Segundo o primeiro levantamento do Acompanhamento da Safra Brasileira de Cana-de-açúcar do Observatório Agrícola da Companhia Nacional do Abastecimento (CONAB) – empresa pública, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) –, realizado em abril de 2017, a área colhida no Brasil de cana-de-açúcar destinada à atividade sucroalcooleira na safra 2017/18, deverá atingir 8.838,5 mil hectares, representando uma redução de 2,3% em relação ao exercício anterior. A menor área plantada derivou do desempenho da Região Centro-Sul (-2,8%), particularmente de São Paulo (-4,5%), maior produtor nacional, agravado pelo grande número de empresas em recuperação judicial, adicionalmente afetadas pelas oscilações observadas nas cotações do açúcar, baixa competitividade dos preços internos do etanol, além dos períodos climáticos adversos, observados nas safras anteriores.
 
Já a produtividade estimada para a temporada 2017/18 é de 73.273 kg/ha. O leve incremento, observado em relação à safra passada (0,9%), é em decorrência da expectativa de recuperação das lavouras na Região Norte-Nordeste (9,1%) e em menor escala na Região Centro-Sul, principal produtora nacional (0,4%), em comparação com o observado na safra passada. As causas estão relacionadas à melhoria esperada das condições climáticas.
 
Segundo a CONAB, no que diz respeito à produção de cana-de-açúcar, na safra 2017/18, esta deverá apresentar um decréscimo de 1,5% em relação à safra passada. Em números absolutos estima-se uma produção de 647,6 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, ante aos 657,1 milhões da safra 2016/17. Mesmo com a expectativa de melhoria das condições climáticas para esta safra, a intensidade na redução de área, observada nos principais estados produtores da Região Centro-Sul, será responsável pela expectativa de menor produção, quando se compara com o período anterior.
 
Açúcar e etanol
Em seu levantamento de abril de 2017, o Observatório Agrícola da CONAB registra com destaque que as unidades sucroalcooleiras, particularmente as situadas em São Paulo, listadas entre as maiores do setor, estão voltando gradativamente a elevar seus investimentos em projetos ligados à melhoria da produtividade e maximização na produção de açúcar, no aumento da disponibilidade de cana e produção de biogás e em novos projetos de logística e infraestrutura para açúcar e etanol, buscando aproveitar o bom momento dos preços no mercado internacional de açúcar e numa menor escala para o etanol anidro no mercado interno, objetivando minimizar a forte alavancagem existente no setor.
 
De acordo com o documento, o preço do açúcar no mercado externo continuará elevando a representatividade do produto no setor sucroalcooleiro nacional para esta safra. A expectativa para o período 2017/18 é de crescimento percentual do açúcar total recuperado (ATR), destinado à produção de açúcar, saindo de 45,9 no exercício 2016/17, para 47,1% estimado para esta safra, conforme observado nesse primeiro levantamento. No entanto, a despeito desse aumento previsto, a produção de açúcar deverá atingir 38.701,9 mil toneladas, praticamente o mesmo número alcançado no período 2016/17, 38.691,1 mil toneladas. Isso decorre do fato da previsão da ocorrência de uma menor produção de cana-de-açúcar nesta temporada – 647.625,6 mil toneladas, contra 667.184 mil do ano anterior. São Paulo será responsável pela maior redução absoluta, 17.711,1 mil toneladas, uma vez que é o maior estado produtor.
 
Enquanto isso, a expectativa da produção brasileira para o etanol total, no primeiro levantamento da safra 2017/18 da CONAB, é de 26,45 bilhões de litros, inferior em 4,9% em relação à safra passada, que atingiu 27,81 bilhões de litros. Esse decréscimo está relacionado ao aumento observado no consumo da gasolina em 2016, que respalda os preços do álcool anidro nas misturas de combustível, além dos preços favoráveis do açúcar que incentivaram a produção dessa commodity em detrimento do etanol.
 
Nesse sentido, e acompanhando o desempenho observado no aumento do consumo da gasolina durante a safra 2016/17, que ficou em torno de 5%, comparativamente ao exercício anterior, a estimativa realizada para a produção do etanol anidro para o próximo exercício, contempla aumento na oferta de 2,8% em relação à safra passada, saindo de 11,07 bilhões de litros para 11,38 bilhões de litros, nesta safra. Para o etanol hidratado, em razão do desequilíbrio estrutural acima mencionado, foi estimada forte redução na produção para o período 2017/18. A estimativa inicial colhida no levantamento da CONAB, em abril de 2017, contempla uma produção de 15,07 bilhões de litros, contra 16,73 bilhões de litros, representando uma redução de 10% em relação ao período anterior.
 
O preço do açúcar cristal no atacado em 2016 e no início de 2017 seguiu tendência mundial de alta. O que pode ser explicado, em grande parte, devido ao elevado preço da commodity no mercado internacional. A queda no início de 2017 coincide com o início da safra no Centro-Sul. Os preços do álcool anidro e hidratado em São Paulo seguiram em alta após valores recordes atingidos em dezembro e outubro de 2016, respectivamente, porém começa um decréscimo no início de 2017, coincidindo com o início da safra no estado.
 
Exportações e importações
O complexo sucroalcooleiro foi o terceiro maior item exportado pelo agronegócio brasileiro em 2016. As vendas somaram US$ 11,34 bilhões, crescimento de 32,9% em relação aos US$ 8,5 bilhões alcançados em 2015 e 9,4% superior aos US$ 10,37 bilhões alcançados em 2014. Os dados são da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), órgão do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).
 
Na safra 2016/17 as exportações de açúcar chegaram a US$ 8,7 bilhões, um incremento de 49% na comparação com o período anterior, quando atingiu US$ 5,8 bi. Os embarques cresceram principalmente em virtude do aumento do preço médio da cotação internacional de açúcar.
 
Os dados da Secex indicam que a importação de etanol do Brasil totalizou 887,2 milhões de litros na safra 2016/17, encerrada dia 31 de março de 2017. Descontando-se esse montante da exportação total, de 869,7 milhões de litros, o país apresentou na temporada um saldo negativo de 17,5 milhões de litros. Esses dados são bem diferentes da safra 2015/16, onde a importação de etanol do Brasil totalizou 271,1 milhões de litros, enquanto a exportação total foi de 1,36 bilhão de litros, ou seja, saldo positivo de 1,09 bilhão de litros.
 
RADIOGRAFIA DA SAFRA 2017/18 DA CANA-DE-AÇÚCAR
  • A produção de cana-de-açúcar, estimada para a safra 2017/18, é de 647,6 milhões de toneladas. Redução de 1,5% em relação à safra anterior.
  • A área a ser colhida está estimada em 8,84 milhões de hectares, queda de 2,3%, se comparada com a safra 2016/17.
  • A produção de açúcar deverá atingir 38,70 milhões de toneladas, semelhante ao produzido na safra 2016/17, continuando favorecida pela conjuntura favorável.
  • A produção de etanol ser de 26,45 bilhões de litros, redução de apenas 4,9% em razão da preferência pela produção de açúcar.
  • A produção de etanol anidro, utilizada na mistura com a gasolina, deverá ter aumento de 2,8%, alcançando 11,38 bilhões de litros, influenciada pelo aumento do consumo de gasolina em detrimento ao etanol hidratado.
  • Para a produção de etanol hidratado o total foi de 15,07 bilhões de litros, redução de 10% ou 1,67 bilhão de litros, resultado do menor consumo desse combustível.
Fonte: CONAB