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Déficits de eficiência
Dentro de casa, sempre existem déficits de eficiência a se superar – e em geral mais fáceis de determinar – o que pode ser um eficaz caminho para se consolidar uma cultura de aumento progressivo de produtividade, dentro dos empreendimentos.
 
Coriolano Xavier*
A safra brasileira 2017 acaba de ganhar alguns milhões de toneladas, com a revisão feita pelo IBGE em maio, aumentando sua estimativa para 238 milhões de toneladas, 9% maior do que a previsão anterior e 29% maior do que a safra 2016. Por trás dessa marca, há outro fato magnífico, e ainda mais estratégico, que é a evolução contínua da nossa produtividade. Nos últimos 40 anos, a produtividade total dos fatores de produção na agricultura (terra, insumos, mão de obra e capital) cresceu 3,5% ao ano¹, o dobro da agricultura dos Estados Unidos.
Pesquisa científica, inovação tecnológica, difusão técnica, políticas de fomento, crédito, estrutura -- tudo isso soma para essa conquista. Mas lá no rincão, na lida diária, como o produtor pode se tornar mais e mais eficiente, mantendo-se na dianteira da produtividade? E a resposta, vinda de diferentes especialistas, aponta mais ou menos na mesma direção: é preciso disciplina gerencial para descobrir déficits de eficiência específicos, dentro dos sistemas de produção, o tempo todo. Uma busca sistemática.
Déficits de eficiência são oportunidades de ganho. Representam a diferença entre um desempenho atual e uma referência de resultado melhor. Uma das formas de se encontrar essas disparidades é comparando dados do próprio empreendimento. Por exemplo, diferenças de rendimento entre equipamentos iguais, índices de uso de materiais ou insumos por diferentes unidades internas, desempenho de funcionários ou equipes em uma mesma tarefa (produtividade de tratoristas, tratadores, vendedores etc.) e muitas outras comparações.
 
Existem disparidades que são mais fáceis de determinar do que outras, pois exigem menos complexidade de mensuração. Como é o caso do número de quebras de equipamentos, de atrasos em fluxos de suprimento, do número de acidentes do trabalho (e a sua gravidade), da quantidade de produtos descartados ou rejeitados em nome de um padrão, do número de embalagens defeituosas e assim por diante. Nesses casos, a melhor referência é sempre zero. Aliás, para qualquer tipo de desperdício a referência a ser perseguida deve ser zero.
 
Muitas vezes, focamos na busca e descoberta dos melhores padrões do mundo, o que é louvável e deve ser feito, pois a economia está globalizada e trabalhamos em um agronegócio com protagonismo internacional. Mas vale lembrar que, dentro de casa, sempre existem déficits de eficiência a se superar – e em geral mais fáceis de determinar, o que pode ser um eficaz caminho para se consolidar uma cultura de aumento progressivo de produtividade, dentro dos empreendimentos.
 
Paralelamente, é preciso buscar por déficits de eficiência externos e mais ambiciosos, comparando indicadores do seu negócio ao desempenho de seus competidores (sejam eles vizinhos ou parceiros de cadeia produtiva) e, também, aos melhores indicadores da atividade, no mercado internacional. Afinal, por ser um setor inovador e de excelência competitiva, o agro brasileiro bem sabe que vantagens operacionais ou de modelos de negócio podem ser voláteis e superadas por outros atores dinâmicos do mercado, a qualquer momento.
 
Enfim, encontrar novas e melhores referências de desempenho sustentável deve ser um esforço contínuo de cada empreendedor do agro, seja um produtor ou gestor. Aliás, esse é um desafio do setor como um todo. Em geral isso não é fácil, pois requer dedicação, bastante informação e sintonia fina de gestão. Mas a recompensa vale; basta olhar para as conquistas do agro brasileiro, nas últimas décadas. E que fique o exemplo para as cadeias produtivas ou empreendedores que ainda estão a dever. “Agrotendências 2017”, Wedekin Consultores.
 
*Coriolano Xavier, Vice-Presidente de Comunicação do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM.