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INVESTIMENTOS NA PRODUÇÃO NACIONAL DE BIOCOMBUSTÍVEIS
 
Investir na produção nacional de biocombustíveis é a melhor e mais rápida maneira de garantir o abastecimento interno de combustíveis líquidos no Brasil, além do atingimento das metas do RenovaBio e do Acordo de Paris para o clima e o meio ambiente.
 
Marcus Frediani
 
Apesar de o problema da escassez global de açúcar ter entrado em estágio de reversão, com preços em queda a atestar a vertente, no Brasil, a questão do aumento das importações de combustíveis líquidos, como gasolina, diesel e, agora, etanol, continua a ser uma das maiores preocupações da cadeia de produção e distribuição do setor. Nesse cenário, entretanto, a produção local de biocombustíveis surge como solução tangível, rápida e viável para garantir o nosso abastecimento interno e tirar o Brasil do sufoco. Contudo, ao lado de boas promessas – turbinadas, inclusive, pela conquista do “estado da arte” em termos de modernização e avanço tecnológico de nossas usinas, como as de etanol e de biodiesel, por exemplo –, existem também entraves que precisam ser transpostos para que isso seja possível.
 
É o que, entre muitas outras coisas, explica Cid Caldas, coordenador-geral de Cana de Açúcar e Agroenergia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), nesta entrevista exclusiva à Revista Agrimotor. Aliás, para ele, a solução desse problema precisa ser “pra ontem”, não só por uma questão de desenvolvimento econômico, como também para que o Brasil consiga atingir os objetivos propostos pelo RenovaBio, no que tange ao aumento de produção de combustíveis ambientalmente amigáveis, fabricados aqui e capazes de reduzir os níveis de emissões no planeta, como também ficou pactuado no Acordo de Paris. Confira!
 
Agrimotor: Qual a análise que você faz do momento atual do mercado de açúcar no mundo? A escassez dos estoques e a volatilidade dos preços ainda preocupa?
Cid Caldas: Creio que ainda em 2017 e, talvez, em 2018, ainda haja uma necessidade de recomposição dos estoques de açúcar em níveis globais. Tivemos um pouco de questão climática interferindo, mas, também, a existência de alguns problemas em países como a Índia (NE: A Índia é o segundo maior produtor de açúcar no mundo, depois do Brasil), onde grande parte do fornecimento da commodity vem dos pequenos produtores, e estes, por algum motivo político ou desestímulo à produção de cana-de-açúcar, migraram para outras culturas, o que faz com que muitos suspeitem de um movimento especulativo. Tudo isso se refletiu numa elevação dos preços no mercado internacional. Agora, começou uma tendência de queda de preços. Só para se ter uma ideia, no Brasil, país que detém mais de 45% do mercado livre de açúcar no mundo, os preços bateram em US$ 600 por tonelada em outubro do ano passado. Mas, já em abril de 2017, esse valor caiu para US$ 470 por tonelada. Ou seja, há uma tendência de estabilidade aí.
 
E no que diz respeito ao etanol?
No etanol a gente tem algumas variáveis que estão afetando. Hoje, há a obrigatoriedade de contratos entre os produtores e os distribuidores. Então, temos uma espécie de garantia de abastecimento. Mas há a questão do etanol hidratado, que concorre com o preço da gasolina. Como a gasolina estava com um preço deprimido por uma série de fatores, não havia espaço para elevação de preço do etanol hidratado. Agora, está difícil dizer se esse cenário vai melhorar ou se agravar. A esperança desse setor é o RenovaBio, que é um programa bastante ousado, com foco na preservação do meio ambiente, que trabalha com a meta de duplicar a produção nacional de biocombustíveis (portanto, não só do etanol, como também o biodiesel e o querosene à base de soja, por exemplo, e que hoje é de 28 bilhões de litros) até 2030.
 
E a quantas anda a tramitação desse projeto?
O RenovaBio é um programa que está sendo construído desde novembro do ano passado, com a participação de todos os agentes nas discussões: distribuidores de combustíveis e biocombustíveis, a Petrobras, centros de pesquisa, as universidades, a Embrapa, o Ministério do Meio Ambiente etc. Agora, está em fase de aprovação do projeto ou Medida Provisória para ser encaminhado à Casa Civil, para ser tomada a decisão da forma como ele vai ser apresentado ao Legislativo.
 
Ele prevê investimentos na pesquisa para cumprir essa meta?
Não. Na verdade, a proposta é diferente. Cada tipo de biocombustível tem uma pegada de carbono, para mais ou para menos. Pegando o exemplo do etanol, temos, hipoteticamente, a Usina “A” que tem sua produção mais eficiente do ponto de vista ambiental do que Usina “B”. Ambas terão notas que lhes permitirão emitir certificados de redução de emissão, sendo que, naturalmente, a nota da Usina “A” será maior. E a mesma coisa será feita com outros biocombustíveis, produzidos nacionalmente ou não, terão uma nota de classificação. Embora nenhuma usina seja obrigada a ter esse certificado, a vantagem para aquelas que aderirem ao RenovaBio é que esse certificado vai para a Bolsa de Valores, e essas usinas terão um retorno financeiro em função disso, que poderá ser reinvestido na melhoria e, claro, no aumento de sua produção, o que é muito importante para o nosso país, num momento em que estamos importando muitos combustíveis líquidos, inclusive etanol. Então, a ideia do RenovaBio é garantir o abastecimento do mercado nacional com combustíveis que tenham a menor pegada de carbono possível, com saldo positivo do ponto de vista ecológico.
 
E como o Brasil se situa em termos de tecnologia para produção de açúcar e biocombustíveis atualmente?
O Brasil é o primeiro do mundo nesse campo. Não ficamos a dever nada a ninguém. Alguns fatores comprovam facilmente isso. Por exemplo, 95% da cana-de-açúcar da região Centro-Sul são plantados e colhidos mecanicamente. Qualquer um que visitar uma usina de produção de açúcar e etanol vai ficar impressionado com o grau de automação e modernização que vai encontrar lá.
 
Mas e em termos de pesquisa?
Bem, realmente, o que está faltando é um pouco de pesquisa em cana-energia, embora avanços significativos estejam sendo realizados no campo do etanol de segunda geração. Temos plantas produtoras de etanol de segunda geração que simplesmente não existem no mundo. Já temos três usinas no Brasil – uma em Alagoas e duas em São Paulo –, que estão produzindo etanol a partir de palha de cana, que fica no canavial depois do corte mecânico, sem queima, da cana-de-açúcar. Ela está sendo levada para as usinas e, com isso, elas estão conseguindo dobrar a sua produção de etanol daquela área. A estimativa de produção da usina de Alagoas, que começa a rodar agora em agosto/setembro, por exemplo, é de 90 milhões de toneladas/ano, enquanto que a estimativa da segunda usina no mundo capaz de produzir etanol de segunda geração por meio da cana-energia, localizada na Itália – país do qual, aliás, importamos essa tecnologia – é de apenas 14 milhões de toneladas/ano, e ela não está rodando.
 
E o que falta para esse projeto dar certo?
Bem, como costumo dizer, o que falta para esse negócio dar certo é... esse negócio dar certo. (Rs...) É claro que não está sendo fácil para os brasileiros se adaptarem, porque toda tecnologia nova tem seus problemas. Avançar nesse campo requer pesquisa, investimento e, mais ainda, aprendizado, que é o mais complicado. A forma de produção de etanol de segunda geração trazida da Itália não serviu para nós, porque eles trabalham com outro tipo de biomassa. Nosso pessoal está penando, mas estamos insistindo. Como todo avanço tecnológico, quem vai na frente bebe água limpa, mas também quebra pedra. É o tal “preço do pioneirismo”. Então, está todo mundo esperando essas três usinas darem certo para ir atrás. Mas, quando a gente pegar o jeito, a coisa vai disparar em termos de produtividade. A tecnologia de cana-energia é absolutamente fantástica. Ela trabalha com um tipo de cana que tem menos açúcar, mas o dobro ou até o triplo de celulose, e parte do plantio de variedades novas da cana, com cruzamentos que permitem a obtenção de mais massa verde. Junto com a geração de etanol a partir de palha de cana, elas são as tecnologias do futuro, que nos permitirão dobrar a nossa produção de etanol.
 
Só que isso, como você mesmo falou, exige investimentos. Como você avalia a qualidade das atuais linhas de crédito à disposição dos produtores no Brasil?
Olha, aí é um pouco difícil, porque não existe linha de crédito barata. O que pudemos fazer este ano, por meio do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDES), dentro do âmbito do ProRenova, foi disponibilizar R$ 1,5 milhão para o produtor renovar seu canavial, com empréstimos com taxa TJLP + 3,7%. Aqui no Ministério, estamos tentando dobrar esse valor para R$ 3 milhões, mas, ainda assim, a gente sabe que é pouco, porque cada produtor teria a necessidade de R$ 12 milhões para renovar o seu canavial, como determina a literatura. Ou seja, a cada ano, ele deveria renovar mais ou menos 20% da sua área plantada, o que permitiria que, dentro de uma equação de produtividade, todo o seu canavial fosse renovado no prazo de cinco anos. E aqui, vale um parêntese bem interessante, ainda relacionado à pergunta anterior: na produção de cana-energia, a necessidade de renovar o canavial, dentro dessa mesma equação de produtividade, é de mais de dez anos, ou seja, bem maior.
 
Em síntese, apesar de nossa produção e indústria estarem no “estado da arte”, o que o setor sucroalcooleiro – e, principalmente, o de agroenergia – precisa no Brasil continuam sendo investimentos bem direcionados. É isso?
Sim. Sobretudo, há necessidade de o Brasil garantir o seu abastecimento de combustíveis líquidos. Estamos gastando muito com a importação de gasolina, diesel e, agora, com etanol, combustível este cujas importações já batem a cifra de 1,2 bilhão de litros/ano, a maior parte deles produzidos a partir de milho e vindos dos Estados Unidos. Porém, a necessidade não é buscar a autossuficiência, mas, sim, melhorar a nossa balança comercial. Além disso, com essa importação toda, perdendo divisas e poderíamos estar gerando empregos aqui dentro. Então, se não houver uma retomada dos setores a fim de ampliar a produção brasileira de biocombustíveis, não teremos como garantir o abastecimento no mercado interno. Eles são a solução mais rápida e viável para a gente atingir os nossos objetivos, até porque não temos plantas novas de refino de petróleo.
 
E tudo isso “pra ontem”, não é mesmo?
Exatamente, Se nós não começarmos a nos mexer agora, não vamos conseguir atingir a meta de volume do RenovaBio e muito menos do Acordo de Paris para o clima e o meio ambiente, no que tange à redução das emissões e da poluição, principalmente nas grandes cidades. E isso também é uma questão gravíssima, cujo uso de biocombustíveis pode ajudar na redução. Por exemplo, se pegarmos alguns estudos do Prof. Paulo Saldiva – médico patologista, professor da Faculdade de Medicina da USP e atual diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP, que foi membro do comitê que estabeleceu os padrões de qualidade do ar e do comitê que definiu o potencial carcinogênico da poluição atmosférica, ambos da Organização Mundial de Saúde –, neles, é possível constatar, a partir de cálculos objetivos, que só com o uso do biodiesel é possível evitar mais de 150 mortes por ano em São Paulo, ocasionadas por doenças relacionadas à poluição. Então, não menos importante do que a questão econômica e do abastecimento energético, incentivar o uso de biocombustíveis também é uma questão de saúde pública.